Projecto Vencedor: Loja Guebarro

Intervenção: Iluminação (e composição de vitrinismo) para montra como parte da Acção “Ó Mouraria, ilumina a montra!”. Tipo de projecto: Iluminação de montras. Local: Loja Guebarro, Rua do Benformoso 51, Mouraria, Lisboa. Equipa: Sara Roby (designer de iluminação e tutora da equipa), Breno Costa (estudante), Mariane Meier (estudante)
Material de iluminação utilizados: 1 projector Yori, da Reggiani, 3000k + acessórios; calha da Global, de 1m; 2 led line, 2700k, sem difusor/ transparente de 1m; 1 projector Occhio Lui com base, branco. Patrocinador: Miragem

Aos designers de iluminação que, como eu, foram tutores das equipas de estudantes que participaram na Acção “Ó Mouraria, ilumina a montra!”, foi-lhes pedido que preparassem um programa base para cada uma das lojas onde iriam intervir. Quando visitei a loja Guebarro verifiquei que esta loja vende não só todos os artigos de retrosaria como também uma gama muito completa de roupa interior, incluindo peças normalmente difíceis de encontrar. Ao mesmo tempo, ao observar a montra da loja para conhecer o objecto de intervenção (figs. 1 e 2), verifiquei que, apesar de a montra exibir a diversidade de produtos existentes na loja, não conseguia demonstrar que possuía produtos mais especiais ou singulares. E lembro-me, ainda, de pensar recorrentemente que as pernas de plástico que exibiam os produtos meias estavam de alguma forma mal aproveitadas como elemento expositor.

nl13-2.2

A ideia e o programa para o trabalho a desenvolver na Acção partiu dessa sensação, centrando-se na vontade de usar uma perna na montra para expor de forma a criar impacto, um produto específico: a meia, produto do qual a loja possuí uma enorme variedade. Os conceitos inerentes à composição da montra foram: o requinte, com algum dramatismo, sendo que se pretendeu 1. expor produto de forma elegante, 2. recorrendo à simplicidade (1 ou 2 produtos), 3. usando a iluminação para realçar o produto e 4. usando a iluminação para acrescentar teatralidade/ drama.

Desta forma, foi definido que seria utilizada na montra uma única perna expositora, com uma meia-meia trabalhada. Essa perna tornou-se o motivo central da montra, surgindo nela de forma elegante, se bem que insinuante. Como a loja não possuía qualquer identificação na fachada, como complemento criou-se uma caixa em mdf, apelidada pela equipa de totem, (fig.3) contendo o nome da loja em letras recortadas a fresa. Escolheram-se as cores azul e branco como cores únicas para a montra, para escapar aos clichés habituais do preto ou do vermelho, que poderiam destronar a ideia de elegância e requinte que se pretendia criar.

Assim, na montra temos uma perna que exibe uma meia-liga de renda branca e que surge por entre um tecido azul escuro tal como uma perna real que se antevê por entre um vestido comprido aberto de lado. A intenção era a de que o pé pousasse no mármore da base da montra, remetendo-nos assim para um pavimento/ chão real, mas, no primeiro teste da composição verificámos que havia um desequilíbrio na montra, já que nesta estava apenas “ocupada” a metade inferior. (fig.4)

nl13-2.3

Fig. 3 Membro da equipa a trabalhar no totem.
Fig. 4
Primeiro teste à montra.

Decidiu-se então criar uma base para montra, com o objectivo de subir a meia/ perna para a parte central da composição e para tal utilizaram-se as caixas que contém as meias. A composição das caixas, que empregou caixas iguais mas de dois tamanhos diferentes, procurou dar alguma dinâmica à base da montra e acabou por cobrir por completo a base existente pois o contraste entre o mármore e as caixas não foi considerado o mais apropriado.

Nessa altura a organização do produto na montra ficou mais sedimentada e, a partir desse momento a equipa pode testar o trabalho relacionado com a iluminação. No totem instalaram-se, pelo interior, duas led lines que tiveram o papel de retro-iluminar as letras do nome da loja. De seguida, e usando apenas um projector, foi direccionado um foco de luz com a distribuição do feixe de luz o mais fechado possível dentro do disponibilizado, e que teve a intenção de condensar a atenção do observador na meia trabalhada, sendo que ao mesmo tempo e devido à direcção escolhida, procurou realçar ao máximo a textura dessa meia. Nos testes finais a equipa concluiu que a composição da iluminação beneficiaria se fosse acrescentado na parte superior um realce de luz para modelar o tecido. Esse realce foi efectuado com uma luz colorida, que introduziu mais dramatismo na composição.

Acontece que o projector que produziu esse efeito de luz colorida foi trazido para a Acção pelo patrocinador da equipa cerca de meia hora antes de os trabalhos terem que ser concluídos. Foi nessa altura também que, um dos membros do grupo do patrocinador, ao ver o resultado obtido, imaginou que todo o público iria ser atraído para a montra e poria as mãos nela para ver os detalhes da meia. Então, e quando já se julgava que a montra estava concluída, surgiu a ideia de “estampar” nela duas mãos, como prova do encanto provocado. E essas mesmas mãos estampadas a branco, além de atestarem como o contributo de todos os membros de uma equipa é essencial para o resultado final, tiveram um efeito duplo. Não só resolveram melhor o espaço nas duas áreas laterais da perna/meia, preenchendo-o numa dimensão ou layer próxima do transeunte, como introduziram um toque de humor ao trabalho, que libertou a montra de qualquer cariz menos elegante que lhe pudesse ser associado. No conjunto, a montra passou a contar uma história, para além de expor o produto, gerando interesse e convidando o passante a entrar na loja com o intuito de a conhecer.

nl13-2.4

Fig. 5 Resultado final diurno da montra.
Fig. 6
Resultado final nocturno da montra.

O resultado obtido na montra, que foi preparado para funcionar em horário diurno e nocturno (figs. 5 e 6), foi considerado, no concurso que se realizou no final da Acção “Ó Mouraria, ilumina a montra!” como o vencedor, dentro do conjunto de 9 montras desenvolvidas durante a Acção. Considero que todas as montras apresentavam propostas muito interessantes e de elevada qualidade, pelo que os verdadeiros vencedores foram realmente as equipas de estudantes que tiveram a oportunidade de trabalhar com designers de iluminação profissionais numa experiência única. Como Breno Costa escreveu, por sua iniciativa, logo após a Acção terminar.

Ao fim deste evento, apenas uma certeza. Não apenas os “brazucas” liderados por Sara Roby sairam vencedores, mas também todos aqueles que participaram e contribuíram para a grandeza deste evento, tão importante para a promoção do lighting design em Portugal e para a revitalização social e urbana do bairro da Mouraria.

Contudo, como designer de iluminação tutora da equipa vencedora, cabe-me agradecer à equipa motivada e dedicada que participou comigo na realização da montra e que foi composta pelos estudantes brasileiros Breno Costa e Mariane Meier (fig. 8), pelos lojistas Maria Luísa Guerreiro e António Barroso (auxiliados por Fernanda) e pelo patrocinador Miragem, especialmente a Susana Alpalhão e Rui Moraes com quem lidámos directamente. Agradeço também à LabLD por nos ter proporcionado este evento de partilha, de acção e de enriquecimento da prática profissional do design de iluminação.

nl13-2.5

Fig. 7 Da esquerda para a direita Sara Roby, Breno Costa e Mariane Meier.

Sara Roby

* De notar que o trabalho foi realizado apenas com a montagem dos projectores em situações que não recorreram a furações nas paredes ou tectos, uma vez que se tratou de uma intervenção numa montra em que logista não era o proprietário do imóvel.
Fig. 1. Imagem captada por Sara Roby. Fig. 2. Imagem captada por Paula Pinote. Fig 3. Imagem captada por Mariane Meier. Fig. 4. Imagem captada por Breno. Costa. Fig 5. Imagem captada por Luís Amaro. Fig. 6 Imagem captada por Sara Roby. Fig.7 Imagem captada por Breno Costa.