Porto: She Changes

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© Sara Roby

Na minha última visita ao Porto, no início do verão passado, fui propositadamente à rotunda de Matosinhos onde está instalada a escultura She Changes e dediquei algum tempo a observá-la, o que nunca tinha feito em visitas anteriores. A rotunda localiza-se junto à praia de Matosinhos na Praça Cidade Salvador e nela confluem a Estrada da Circunvalação, a Via Castelo do Queijo e a Avenida Norton de Matos. Trata-se assim de uma rotunda com alguma importância.

A escultura She Changes que ocupa a rotunda é uma peça de arte urbana da artista Janet Echelman e é perfeita para marcar a rotunda onde se insere. Apesar da sua dimensão impressionante – que se justifica, face à escala da praça e para assinalar a convergência de três vias de circulação fundamentais – esta peça é uma leveza enorme. A leveza é dada, não só pela forma adoptada mas também pelo material utilizado, rede, que claramente evoca a actividade da pesca e os seus aprestos, o que se justifica perfeitamente pela situação em que a rotunda se encontra, na chegada ao mar. A fluidez de movimento deste material rede, na reacção ao vento pode remeter ainda, e mais poeticamente, para a ondulação marítima, para o oscilar de uma vela na brisa ou para o movimento de uma criatura aquática.

Acontece que, para se conseguir reparar em todas estas insinuações exemplarmente propostas pela artista, precisamos da luz do dia. À noite, quando propositadamente visitei de novo o local, deparei-me com uma peça que pode com toda a facilidade passar despercebida, o que é de lamentar e desvaloriza totalmente a escultura.

Para quem, como eu, esperava deparar-se com o encanto que surge nas inúmeras fotografias da She Changes captadas à noite, a realidade desilude. O que a rotunda nos apresenta é uma escultura desvanecida e sem presença, algo semelhante ao que documentei na imagem imediatamente abaixo.

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© Sara Roby

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© Sara Roby

Isto porque a imagem que apresento imediatamente acima, equivalente às imagens que figuram por exemplo na internet, é uma criação pura da máquina fotográfica, depois de alguma manipulação de valores de abertura, velocidade de obturação e sensibilidade ISO. A realidade é, como pude testemunhar, de todo muito mais apagada.

Assim, só se pode constatar que se encontra aqui uma oportunidade perdida para um projecto de iluminação específico. Certamente, e com a tecnologia actual, conseguir-se-iam facilmente obter inúmeros efeitos de luz de todo mais interessantes que os que existem actualmente. Ocorre-me por exemplo o efeito iridescente semelhante ao captado na imagem manipulada da câmara abaixo, tão próprio de anémonas ou de outros entes marítimos análogos, ou o efeito de movimento que poderia ser ampliado ou aumentado com jogos de luz. Em qualquer caso, por intermédio da luz artificial, seria acrescentado um outro nível de significado à peça, num contributo mais digno para a sua apreciação.

Sara Roby LArq, MSc, PhD