Entrevista a Rui Damas, LD, Docente IPP-ESMAE

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©Diogo Baptista – Isabel Ventura – Teatro Isabel Sa e Costa ESMAE – Porto 11 de Setembro 2015

Augusto Bastos Ramalhão. Rui, antes de mais, agradeço a disponibilidade para receber a LabLD e, para começar, como é que descreverias o Design de Iluminação para palco e como é que este se compara com outros exercícios do Design de Iluminação?

Rui Damas. Bom, eu acho que as semelhanças são maiores do que as diferenças, para ser muito concreto, e com quanto mais áreas da iluminação me deparo, mais me apercebo disso. Muitas das vezes o que faz a diferença, de facto, são as finalidades, pois os métodos acabam por ser semelhantes, seja ao nível da definição dos conceitos, seja da forma como os implementar. A principal diferença em relação às artes de palco, com toda a abrangência inerente aos inúmeros tipos de espetáculos que existem, é que todos eles existem com base em diferentes pressupostos: diferentes conceitos, dramaturgias, linguagens, sendo uns mais dependentes de outras áreas e outros e menos. Quero com isto dizer que há áreas, como o teatro, em que coisas como a cenografia e figurinos são completamente interativas com a luz, influenciam-se mutuamente – e isso define a forma como a luz vai ser utilizada e altera completamente o exercício do Design de Iluminação. Há, em outros casos,  condições que permitem que a luz se consiga explanar de uma forma mais livre, menos condicionada. Daí que, no fundo, a principal diferença na utilização da luz para as artes do espetáculo seja, grosso modo, haver uma série de áreas multidisciplinares, que convergem para o mesmo resultado.

ABR. Parece-te que possa haver, cada vez mais, um esbater dessas diferenças ou, antes pelo contrário, o caminho faz-se pela “separação das águas”?

RD. A verdade é que, pensando na disciplina que nós trabalhamos, ela tem sido objecto de estudo apenas durante os últimos 100 anos e isso, obviamente, coloca barreiras e também desafios que são explorados, também, por outras áreas do conhecimento. O próprio tipo de ensino está numa fase de atual remodelação: primeiro deixámos o modelo clássico, passámos para um modelo de separação das disciplinas, de especialização, e agora voltámos a um modelo em que se começam, novamente, a juntar as disciplinas todas. No Design de Iluminação também é um pouco assim, a base de tudo é a luz: a forma como ela é aplicada é que vai definir a metodologia, os materiais e a maneira de interpretar a área para a qual cada um dos designers de iluminação se especializou, da mesma forma que um especialista em psicologia forense não pode abordar nem tratar da mesma forma um assunto que diga respeito à psicologia parental, por exemplo. Estamos, também, no caso da luz e do Design de Iluminação, perante uma e mesma disciplina e matéria, a metodologia na abordagem de cada uma dessas ramificações – arquitetural, de instalação artística, de cena, de estúdio, etc., é que têm sido diferentes por uma série de vicissitudes. Apesar disso, cada vez mais, também, o próprio mercado mostra-nos (e a Philips é um bom exemplo disso) como é possível uma única marca ter uma linha de produtos muito mais abrangentes para diferentes aplicações.

ABR. O facto de haver empresas como Philips e outras, que oferecem múltiplos tipos de produtos de iluminação para diferente aplicações, acaba por denunciar também uma certa miscigenação, na medida que existem equipamentos que têm uma aplicação muito específica, mas que já vêm munidos de funcionalidades que, anteriormente, apenas existiam para a aplicação iluminação de palco, por exemplo. Pode ser isto reflexo dos “requisitos” que os profissionais do Design de Iluminação colocam sobre os designers  e engenheiros de produto das marcas?

RD. A verdade é que o pressuposto científico por detrás da luz e do exercício da luz, a reflexão, a refração, etc., não muda independentemente da sua aplicação; instrumentos ou objetivos e julgo que as empresas foram um pouco atrás disso. É inegável que acaba por ser uma estratégia da indústria fabricar os mesmos instrumentos porque esses mesmos instrumentos permitem que diferentes pessoas tenham acesso a potencialidades em várias áreas. Estamos perante uma disciplina recente – são apenas 100 anos de electricidade. Por outro lado, o mesmo designer trabalhar múltiplas áreas ainda é algo raro. Não sei se a longo prazo o mundo académico irá de encontro a isto, e se teremos um curso de iluminação com um ano zero igual para todos os alunos e onde, a partir daí, cada pessoa fará o seu percurso em iluminação para teatro, cinema, e por aí fora. Ainda assim acho difícil que exista ou vá existir um curso que habilite os formandos no sentido dessa polivalência, que torne os designers de iluminação aptos para o exercício de múltiplas vertentes do design de iluminação.

ABR. No entanto, nos anos 90 houve essa visão de oferecer, numa Escola Superior em Portugal, um curso de iluminação para palco. Fala-nos um pouco acerca desta visão.

RD. O ónus não recai sobre mim. Eu tive o privilégio de fazer parte do primeiro curso de Design de Luz e Som da ESMAE, mas essa visão deve-se sobretudo a Francisco Beja, que foi um dos responsáveis pela abertura do curso e, sobretudo, no caso do Francisco em particular, tem a ver com paixão. Ele formou-se em Interpretação em Inglaterra e, portanto, a luz surgiu como uma paixão. Não só existe a questão de haver um curso superior que, neste momento, continua a ser único em Portugal na área – porque existiu um nicho de oportunidade que o Francisco agarrou e que permitiu que este curso se pudesse realizar com as condições que ainda hoje consegue ter. Não podemos esquecer, igualmente, a forma como ele formatou todo o departamento de Teatro da ESMAE, que é um modelo único na Europa: as pessoas estão juntas nas diferentes áreas e intervêm na concepção de espectáculos reais para um público real. Por outro lado, este é o momento de repensar o currículo, pois o facto de este curso contemplar duas áreas tão tecnológica e tecnicamente densas, como é o caso da iluminação e da sonorização, bem mais do que eram há 20 ou 25 anos, quando o curso abriu, é algo que urge ser feito.

ABR. Do ponto de vista curricular, consegue traçar-se uma evolução na história do curso? Esse caminho, feito nos últimos 20 anos, para que novos caminhos aponta no futuro?

RD. Para mim é muito clara a evolução do curso, já que fui uma espécie de sócio fundador, na medida em que fiz parte do “ano zero”e depois tive a felicidade de ser convidado para ser docente. São 20 anos a dar aulas e é inegável a evolução tecnológica e científica do plano curricular. Há 25 anos havia um único computador na ESMAE e, de repente, dá-se o boom tecnológico do final dos anos 90 e tudo se tornou incomparavelmente mais acessível. Houve uma altura de grande força financeira por parte do Instituto Politécnico do Porto que nos permitiu fazer essa aposta e garantir essa propensão tecnológica ao currículo, num curso que se quer eminentemente prático. Hoje, um dos problemas tem a ver com o facto de, do ponto de vista do currículo, começar a não ser exequível encaixar em 3 anos aquilo que achamos ser a formação-base de um designer de luz e som. Um desenho de som já não se faz só com um sistema estéreo, um desenho de iluminação já não se faz só com 20 projectores. Com a evolução das duas áreas torna-se difícil manter um nível de exigência que consideramos ser aquela que devemos solicitar aos nossos alunos, portanto, a médio prazo, haverá tendencialmente uma cisão no curso entre a vertente da luz e a do som. Por outro lado, não podemos ignorar a dimensão e o papel dos novos media e do vídeo, e isso também é um desafio nosso e um desafio grande. Nesse sentido, temos procurado ver o que se faz lá fora, pois o vídeo passou ser, de certa forma, “matéria intrusiva”; no caso português, devido às contingências e dimensão do país e do mercado, muitas vezes é pedido ao designer de iluminação que faça este trabalho. Inevitavelmente, vamos ter de avançar por aí.

ABR. Ao nível do mercado profissional de iluminação, qual é a situação actual? Houve, há 16 anos, um evento que acendeu o rastilho de uma série de manifestações de empreendedorismo ao nível cultural, o Porto 2001. Passado o fulgor desse evento mas passada também a crise do sector cultural que a ele se seguiu, qual o cenário que um designer de iluminação de palco encontra em Portugal?

RD. Agora que a cultura se começar a levantar outra vez, começa a sentir-se a necessidade de haver designers de iluminação. A perspectiva para o futuro passa por, primeiro, que o mercado de trabalho volte a ter condições para absorver os alunos e lhes possa dar oportunidades de experimentação. São precisos muitos anos para se formar um designer, ele não nasce apenas de uma escola, nasce, igualmente, de um percurso pessoal e profissional. O Design de Iluminação é, a este respeito, uma área muito cara e complicada, porque nós somos verdadeiramente exigentes sobre o que vemos e como o vemos. O mercado tem cada vez mais potencialidades e, nos alunos pós-crise que têm chegado à ESMAE, nota-se uma maturidade grande no sentido em que há um propósito inerente de reorganização do próprio trabalho e de adaptação e readaptação ao mercado actual por parte destas pessoas. Nem todos serão designers no sentido mais puro do termo – em Portugal, isso vai continuar a acontecer apenas para alguns eleitos; temos um trajecto ainda muito longo para traçar em relação ao que se entende como cultura e isto não é uma realidade apenas no que diz respeito ao Design de Iluminação. Vinte e cinco anos é muito pouco tempo, e nós continuamos a ser muito poucos, há um percurso que tem de ser feito em muitas frentes, nomeadamente no reconhecimento de carreira. Vai haver algumas elites que vão perceber o papel e a importância do designer de iluminação, vai haver alguns designers que vão conseguir criar mercado, e haverá outros que vão precisar de fazer um trajecto mais longo, feito de outros caminhos, enquanto não for dada como incontornável a exigência de bem iluminar.

 

Ligações:

ESMAE

Curso Design de Luz e Som

 

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