Tecnoforma, Serralves

Na minha visita ao Porto no passado verão, encontrei no Museu de Serralves a exposição Tecnoforma, a primeira grande exposição dedicada à obra do artista português Silvestre Pestana. Este artista – poeta, artista plástico e performer – que desenvolve trabalho desde a década de 60, é considerado um dos artistas portugueses mais radicais.

Na exposição em Serralves interessaram-me particularmente duas obras. São obras que utilizam como media a luz artificial.

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Imagem da instalação-escultura Luso Padrão para Marte  © Sara Roby

A primeira, uma instalação-escultura denominada Luso Padrão para Marte, que pretende “questionar inquietações políticas e os dilemas da identidade nacional”1 foi inicialmente apresentada numa edição da Festa do Avante em 1992 e foi refeita para a exposição em Serralves. À parte das intenções do artista, a obra interessou-me pelo modo como anuncia a sua existência. Poderá ser isso até um resultado não intencional, já que esta é uma re-

-instalação e a escultura não foi inicialmente planeada para ocupar este espaço. Mas o facto foi que a luz colorida proveniente do néon utilizado, reverberava e escoava-se para salas adjacentes, alterando temporariamente o espaço do museu e criando um momento de antecipação para quem percorria a exposição, como é visível na imagem seguinte.

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Vista do interior do Museu de Serralves © Sara Roby

Na segunda obra, uma instalação denominada Árvore Fractal, surgiram as referências à ecologia e tecnologia, temáticas bastante presentes na obra do artista. Por intermédio de vidro e argon e da luz resultante, o artista criou formas que remetem para árvores e consequentemente, pelo uso de reflexões, construiu uma floresta. No entanto vi essa floresta, que parecia cristalizada e perene mas, talvez também pelas formas criadas e ainda pelas cores utilizadas, vi também relâmpagos, que tudo têm de momentâneos. E talvez aí esteja o que me interessou nesta instalação para além da sua beleza formal, a mensagem ecológica, que aponta para o elemento árvore que a sociedade contemporânea assume por eterno mas que, face ao nosso comportamento, é perigosamente efémero.

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Imagem da instalação Árvore Fractal © Sara Roby

Nestes dois casos, a cor da luz artificial das instalações estimulou a minha percepção e certamente a dos restantes visitantes. O próprio artista esclarece – “No meu trabalho é muito importante o cromatismo. Não sou um poeta triste.”2 Pois neste país com tendência para a sobriedade, presenciei dois exemplos em que o designer de iluminação pode aprender, com a arte, a tirar partido da luz colorida e da sua inerente mensagem.

Sara Roby LArq, MSc, PhD

1 Duarte, Mariana. (2016) “Biovirtual/ Biometria – Utilização de néons, luzes e fotografia”. In: folheto da exposição Silvestre Pestana: Tecnoforma, 26 Maio -25 Setembro. Porto: Fundação de Serralves
2 id., ib.