Tomar: Cidade entre reflexos

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Num passeio noturno, ao entrar em Tomar pela emblemática ponte romana, o nosso olhar é invadido e conduzido quase de imediato para a diversidade de elementos arquitetónicos que se impõem e demarcam cada ponto deste lugar. Neste sentido, a luz artificial tem um papel fundamental na leitura de cada plano.

Olhando do cimo desta ponte deparamo-nos com o contraste entre luz fria e luz quente. Num primeiro momento, surgem as fachadas de um edifício de textura plana e com um traço simples – os Moinhos e Lagar d’El Rei (séc. XII e XIII) -, iluminadas de forma difusa a partir de uma luz que realça o branco deste corpo. Esta opção arquitetónica cria uma barreira visual entre a cidade nova e a cidade histórica. Espelhado pelas águas de um rio que corre de forma pausada, este edifício estende a sua escala para além do seu espaço físico, ganhando novas formas através do reflexo das suas fachadas, criando imagens em “movimento” diluídas, quase como pinturas abstratas.

Ainda no mesmo lugar, mas elevando o nosso olhar para um plano mais afastado, impõe-se do alto da colina os símbolos máximos desta cidade, o Castelo e o Convento de Cristo (1160), envoltos por um plano escuro – a Mata dos Sete Montes e o céu. Este protagonismo deve-se sobretudo a uma iluminação ascendente, que através de uma luz quente, lhes reveste a base e intensifica e realça as texturas dos materiais que lhe dão corpo, criando uma perceção que nos remete para um imaginário longínquo de uma época em que os Templários, os Cavaleiros de Cristo, habitavam este lugar. Através desta luz conseguimos perspetivar os diferentes planos e direções que as muralhas tomam, entre luz e ausência da mesma, criando ritmos diferenciados, que se vão alternando. Entre arestas, recortes e até mesmo a ilusão de sobreposição, esta muralha ganha e revela a escala deste importante conjunto edificado (Património Mundial pela Unesco – 1983).

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Deslocando-nos com as margens do rio Nabão e com alguns fragmentos de luz que direcionam o nosso olhar, surge por entre braços de água a ilha – o Parque do Mouchão. Rodeada por uma massa densa de vegetação, tem como símbolo um imponente engenho hidráulico, a roda de madeira com alcatruzes do tempo da ocupação árabe. Neste lugar, caracterizado pelo som da condução mecânica da água e pela luz das suas luminárias, a temperatura de cor existente realça aqui e ali as diferentes formas e texturas percecionadas. Esta luz quente promove um olhar que procura o pormenor de um movimento, quase como uma composição cinematográfica. Olhar e ler a partir de uma câmera fotográfica cuja leitura é finalizada pela luz que nos envolve e toca quase por intuição. De uma forma desorganizada a iluminação desta ilha promove, entre a pouca intensidade lumínica e o escuro, pequenas áreas de conforto que ocupadas por cada individuo ou grupo, são como pequenas casas com áreas delimitadas entre o que é o espaço público e o espaço de cada um de nós.

De uma forma fragmentada a luz que nos conduz através dos vários elementos que compõem esta cidade tão particular, acaba por não a interligar como um todo, persistindo inúmeros momentos de descontinuidade. Do ponto de vista urbano, a procura desta ligação mais definida, será uma opção a ter em conta para tornar a vivência noturna de Tomar ainda mais sublime.

Nuno Farinha