Projecto de investigação: Estudo sobre a iluminação natural na arquitectura

Investigadora: Sara Roby, Universidade Europeia, Laureate International Universities, UNIDCOM/ IADE – Unidade de Investigação em Design e Comunicação. Projecto: A iluminação natural na arquitectura Portuguesa | Tipo de projecto: Projecto de investigação | Local: a recolha de imagens para o projecto estende-se a todo o Portugal Continental | Data: 2009 à presente data | Fotografia: Sara Roby.
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Sala do Capítulo, Palácio Nacional e Convento de Mafra, Mafra (Arqs: João Frederico Luduvice, Custódio Vieira, Manuel da Maia e António Canevari, 1717 – 1750) © Sara Roby.

O meu campo de actuação na área da iluminação centra-se na investigação sobre a iluminação natural e a actualmente estou a desenvolver um projecto de investigação sobre a iluminação natural na arquitectura Portuguesa. Deste projecto no qual a documentação fotográfica tem grande importância, partilho algumas das imagens que recolhi relativas à iluminação natural na arquitectura Portuguesa. Exemplificam situações que considero particulares e por isso interessantes de divulgar.

A Sala do Capítulo do Palácio Nacional e Convento de Mafra apresenta um domínio completo dos elementos da arquitectura e em especial dos elementos paredes e vãos, conjugados na criação de um ambiente iluminado particular. A sala é um espaço elíptico com aberturas em todo o seu perímetro, mas acontece que sua a envolvente exterior, onde de facto se localizam as janelas que introduzem luz no espaço, é uma envolvente plana, circunscrita a duas paredes opostas. São os enchalços de cada abertura que, com diferentes profundidades e diversas inclinações conduzem a luz captada no exterior para o interior da sala. Desta forma inteligente é produzida uma luz indirecta, extremamente requintada e uniformemente equilibrada, tal como é visível na imagem do espaço. Suponho ainda que, e apesar das variações diurnas e anuais, a iluminação natural criada no interior da sala se mantenha uniforme, mergulhando a sala num ambiente de serenidade e dignidade característicos. É que devido à profundidade dos enchalços (maior a sul e menor a norte) a luz difusa do interior possivelmente só é perturbada pela intromissão de um raio solar, em alturas muito particulares do ano. Assim se entende que, dado que a iluminação contribuí para conferir ao espaço a solenidade e tranquilidade necessárias a uma sala nobre, a esta sala tenha sido conferida a importância de Sala do Capítulo à data da sua construção e que, depois da reconversão de parte do convento em Escola de Armas, ainda hoje este espaço esteja reservado à celebração dos actos solenes da Escola.

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à esquerda, Cozinha do Palácio Nacional de Sintra, Sintra (final do séc. XIV – início do séc. XV), à direita, Corredor do Edifício A, Herdade da Mitra, Universidade de Évora, Évora (Arq: Vítor Figueiredo, 1991-1996) © Sara Roby

A imagem captada na Cozinha do Palácio Nacional de Sintra (sob as duas chaminés) e a imagem captada no Corredor do edifício A da Herdade da Mitra evidenciam espaços onde a luz apresenta diferentes naturezas de cor, devido ao diferente posicionamento das suas aberturas. A propósito das mesmas imagens parece apropriado citar um trecho de Juhani Pallasmaa que refere.

The occasional and happy mixing of the cool light of the northern sky and the warm light of the southern sky in a single space can give rise to the experience of ecstatic happiness. 

Realmente em ambos os espaços fotografados a luz natural produz, nas diferentes áreas vazadas pelas aberturas por onde a luz natural é encaminhada para o interior, luminâncias (luz reflectida) com diferentes temperaturas de cor. E de facto, o confronto entre as naturezas de cor destas luminâncias surpreendem-nos alegremente, por demonstrarem em simultâneo e tão claramente como a luz natural pode variar facilmente, apenas devido à orientação de uma abertura.

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Palácio de Cristal/ Pavilhão Rosa Mota, Porto (Arq: José Carlos Loureiro, 1951) © Sara Roby

A imagem do Palácio de Cristal evidencia a multiplicidade de aberturas existentes na cobertura em cúpula, responsáveis por introduzir no espaço a luz multi-direccional que “ecoa” no interior. Esta luz, difusa e uniforme permite que, num pavilhão interior de dimensão considerável, ao contrário do usual, se possam realizar eventos sem recurso à iluminação artificial. Além disso, actua neste espaço, para lá da questão prática, a questão estética, já que a perfuração da cobertura produz um ritmo de formas e de contrastes elegante e poético.

Tendo a vertente poética da luz em conta, Alberto Campo Baeza refere que:

Se me pedissem algumas receitas para destruir a Arquitectura, sugeriria que se tapasse o óculo do Panteão, ou se fechassem as fendas que iluminam a capela de La Tourette.

Também neste caso, se se tapassem as aberturas da cobertura, se perderia o essencial deste pavilhão, aquilo que define a sua arquitectura como única. Caso fossem fechadas as suas aberturas, teríamos um pavilhão anónimo como muitos outros.

Centrei-me neste texto em exemplos em que a luz criada é uma luz difusa e mais uniforme, mas existem na arquitectura Portuguesa inúmeros outros exemplos onde a iluminação natural criada possui muitas outras características. Ficarão por explorar numa próxima oportunidade.

Sara Roby

  1. Pallasmaa, Juhani. (2016) Dwelling in Light: Tactile, Emotive and Life-Enhaning Light. Daylight & Architecture, 26. pp8