Porto: Pontes

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Ponte Luiz I, inaugurada em 1886 (superior) e 1888 (inferior), Théophile Seyrig. Iluminação direccional por multi-ponto interior com descarga em sódio a baixa pressão.

Temos assistido, a nível internacional, a uma forte pressão para a valorização de pontes durante o período nocturno através da iluminação. O recente concurso que elegeu um projecto para iluminar 17 pontes de Londres por uns estimados £20 milhões ou a iluminação da ponte sobre o Bósforo, em Istambul, projecto que terá rondado uns “míseros” £3 milhões há cerca de 10 anos, utilizando na altura a ainda verde tecnologia de iluminação LED RGB, são apenas dois exemplos da tendência que denuncia uma nova necessidade.

Ora, Porto e Gaia estão no mesmo continente, mas não é por isso que saímos penalizados enquanto destino; em especial o Porto, recentemente eleito pela terceira vez Melhor Destino Europeu, e eis que a discussão adquire ainda mais sentido. Com as suas seis pontes partilhadas ao longo de 5,5km entre a que se situa mais a montante, no Freixo, e a que se situa mais a jusante, na Arrábida, define-se a paisagem urbana e condensa-se a história da engenharia de pontes do último século e meio.

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Ponte D. Maria Pia, inaugurada em 1877, Théophile Seyrig e Gustave Eiffel. Em segundo plano ponte de São João, inaugurada em 1991, Edgar Cardoso. Foto do autor.

Actualmente, das seis pontes, apenas Arrábida, Luiz I, Infante e D. Maria têm iluminação dedicada num período que vai desde o pôr-do-sol até cerca das 2h da madrugada. São João e Freixo não têm qualquer tipo de iluminação dedicada, mas no caso da ponte de São João, esta acaba por “beneficiar” do derrame de luz do sistema de iluminação da ponte D. Maria Pia.

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Sistema de iluminação para a ponte D. Maria Pia de quatro pontos (apenas 2 visíveis), lavagem com descarga em sódio a alta pressão. Foto do autor.

Não querendo cair numa toada de apreciação crítica acerca da qualidade da iluminação instalada, diremos apenas que é notório que todo o potencial das imagens nocturnas das pontes está ainda por ser realizado; contudo, este conseguimento acredito vir a estar dependente de uma visão estratégica mais abrangente que inclua também o tratamento das zonas ribeirinhas de ambos municípios. Verdadeiramente comendável seria perceber que as zonas ribeirinhas não estão desarticuladas do resto da malha urbana e que a melhor forma de abordar o desafio passaria pela integração num masterplan, num plano director dedicado à iluminação do espaço público. E é aqui que começa outra parte do problema: jurisdições. Dois municípios e duas empresas detidas pelo estado Português.

As pontes entre Porto e Gaia caem muitas vezes no imbróglio jurisdicional de quem tem a responsabilidade de as manter ou melhorar; o “ping-pong” normalmente acontece entre as Câmaras Municipais de Porto e Gaia, Metro do Porto e a Infraestruturas de Portugal, que resultou da fusão das antigas Estradas de Portugal e REFER em 2015.

No contexto actual em que cada vez mais cidades têm também a sua própria marca e fazem de tudo para se diferenciarem e auto-promoverem, aquelas, como o Porto e Gaia, afortunadas ao ponto de poderem ostentar pontes monumentais de valor incalculável só têm duas opções: ou as potenciam e usufruem dos proveitos económicos que daí resultarão  ou… não.

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Ponte da Arrábida, inaugurada em 1963, Edgar Cardoso. Iluminação por lavagem interior e inferior com descarga em haletos metálicos a alta pressão. Foto do autor.

Desenhar pontes com luz é essencialmente um exercício sobre a criação de ícones; antes das competências de cálculo, são requeridas competências de sensibilidade artística e de design. Valores como a estética, a coerência, a fidelidade e o respeito pela estrutura e sua envolvente e contexto devem ser observados numa composição realizada com o intuito principal da criação de uma imagem relevante e impactante.

É sempre discutível a importância deste exercício; “há coisas mais importantes”, muitos dirão; mas o contributo do Design de Iluminação vai muito para além do tornar (confortavelmente) visível, é pelo seu exercício que construímos imagens e identidades, e, quando a propósito da iluminação de património, falamos já ao nível de criação ou valorização de identidades culturais. Enquanto que “tornar visível” é uma necessidade transversal a todas as sociedades, “o que tornar visível” e “como tornar vísivel” são questões que preocupam sobretudo as sociedades mais evoluídas; creio, por inerência, que é bom sinal começarmos a ter estas discussões em Portugal, esperemos apenas que as elas sejam consequentes.

Augusto Bastos Ramalhão

Legenda Newsletter: ponte do Infante D. Henrique, inaugurada em 2003, Adão da Fonseca e Millanes Mato. Iluminação por lavagem interior e inferior com descarga em haletos metálicos a alta pressão. Ponte D. Maria Pia no fundo, com sistema de iluminação desligado (esquerda) e ligado (direita).

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