Lisboa: A importância da manutenção na iluminação dos monumentos

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Instalação inicial. Foto: Fotógrafo João Paulo.

Ao caminharmos pela Calçada de Sto. Amaro, em Alcântara, ou mesmo circundando a área pelas paralelas e perpendiculares, somos banhados por uma luz alaranjada saída dos candeeiros com armadura em “nabo”, de vidro translúcido – instalados já nos anos 20 do séc.XX –  mas que remetem o transeunte para  a Lisboa dos sécs. XVIII e XIX e suas ruas iluminadas com tecnologia de combustão a azeite ou, posteriormente, a gás. Pontualmente deparamo-nos com um candeeiro de luz branca ou um candeeiro sem luz. Estas diferenciações de tonalidade ou ausências de luz, não têm qualquer carácter intencional de demarcação de espaço ou função, apenas mostram o nível de deficiência da manutenção da iluminação pública nas ruas de Lisboa.

Chegados à Capela de Sto. Amaro [i], na qual foram colocados candeeiros semelhantes aos existentes na zona circundante, deparamo-nos com as mesmas alternâncias de luz.

Mais ainda, deparamo-nos com uma iluminação descurada da Capela, não respeitando o projecto de design iluminação inicial [ii]. As diferenças volumétricas, outrora salientadas pela iluminação do zimbório e o destaque pontual do sino, no topo do corpo; o realce da porta de entrada no espaço; a iluminação da cruz alta na frente do conjunto arquitectónico, desapareceram por completo. Aqui sim, havia uma diferenciação de planos que era definida pelas diferentes temperaturas de cor. Assim, a ideia de progressão visual, de diferenças volumétricas em todo o conjunto, perdeu-se. Ficando, apenas, o destaque para a galilé semicircular da fachada onde, contudo, os azulejos no interior permanecem iluminados.

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Instalação actual. Foto da autora.

Perde-se, assim, a leitura de um edifício que, ele próprio, evidencia diferenças arquitectónicas de diversos períodos da história da arquitectura.

Iluminar um monumento é um acto de responsabilidade na preservação e valorização do património cultural. Uma instalação, mesmo quando o Design de Iluminação se mostra eficaz em todas as suas vertentes, pode perder toda a sua intenção devido à simples falta de manutenção. Uma percepção da cor que não é a original, uma intensidade que se perdeu, uma sombra que engole um pormenor, em vez de o destacar, podem alterar por completo a compreensão daquele que deve ser um marco histórico e das memórias do local. Se olharmos para a instalação de luz como uma narrativa, a percepção da mesma altera-se se eliminarmos palavras ou frases da sua composição.

A manutenção do sistema instalado é tão importante quanto o projecto em si. Se o Design de Iluminação consciente diminui o desperdício energético, a gestão e manutenção programada da sua instalação contribuem para uma maior eficácia luminosa e eficiência energética. Contribuindo, ainda, para a poupança no orçamento das autarquias/entidades responsáveis e para a preservação do ambiente.

Se as instalações não seguem um plano de manutenção, para além da substituição das lâmpadas em fim de vida, caminhamos para a degradação visual, ambiental e social. Uma manutenção preventiva adequada, em vez de correctiva, pode incluir agendamento de controlo e inventariação de toda a instalação. A limpeza das lâmpadas, luminárias e outros componentes, em períodos programados e o respeito de procedimentos de segurança adequados de verificação e substituição, contribuem para um resultado mais eficiente. Pois nem mesmo a tecnologia LED, de longa durabilidade e alta eficiência energética irá resistir à acumulação de poeiras nos diversos componentes do sistema instalado e outras falhas no mesmo.

Até quando o remediar de situações irá permanecer na política de manutenção e conservação dos monumentos em Portugal?

A segurança e a visibilidade do espaço devem andar de mãos dadas, no sentido da apropriação do mesmo por parte dos seus habitantes e visitantes. Mas, mais do que a quantidade de luz, há-que valorizar a qualidade da mesma. Esta qualidade tem de ser controlada e garantida através de regras mais rigorosas na manutenção e conservação das instalações e, por consequência, do meio ambiente.

Paula Pinote

[i] Capela de traça original do período renascentista, com claras soluções estruturais góticas e decorações pré-barrocas, foi edificada em 1549, seu projeto é atribuído a Diogo de Torralva, e está classificada como Monumento Nacional pelo Decreto datado de 16 de Julho de 1910.
[ii] Projecto de iluminação e acompanhamento de obra pela Divisão de Iluminação Pública da Câmara Municipal de Lisboa, Arquitecta Maria João Pinto Coelho. Instalador: João Jacinto Tomé SA, Engenheiro Agostinho da Silva Ribeiro. Ano 1996.