Sobre o espaço público noturno

‘Vida noturna’ é uma expressão que costumo usar para resumir o que acontece em ambientes urbanos, durante as horas que se seguem ao pôr-do-sol.

Até ao séc. XIX, o leque de atividades públicas noturnas nas cidades do mundo ocidental era relativamente reduzido, limitado a locais de consumo de bebidas, essencialmente frequentado por homens. No século XIX, em várias cidades da Europa e Estados Unidos, assistiu-se à modernização da vida urbana e a uma melhoria da qualidade de vida da classe média. A iluminação pública, com candeeiros a gás concentrava-se nas ruas principais, comerciais, convidando ao passeio e ao prolongamento do horário de abertura de algumas lojas.

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Candeeiro a gás em Baltimore, Estados Unidos. Fonte: www.pinterest.com

Um dos aspetos que caracterizou a era industrial foi o desenvolvimento de uma disciplina de trabalho mais rigorosa. As atividades culturais e de lazer passaram a decorrer ao fim do dia, depois do trabalho.

Lentamente, a vida noturna nas cidades passou a fazer parte das realidades urbanas e as cidades começaram a olhar para a sua identidade noturna, em que a variedade de oferta de experiências noturnas definia até um certo grau de urbanidade.

No final do séc. XIX e início do séc. XX, apenas uma pequena minoria trabalhava à noite – profissões como vigilantes, funcionários de limpeza e recolha de lixo, comerciantes, funcionários ligados aos transportes, jornalistas, padeiros ou empregados de restaurantes e bares.

Nessa altura, pouca produção industrial ocorria 24 horas por dia, com exceção da indústria do ferro. A adoção de novos processos de produção industrial contínua no final do século veio aumentar o número de postos de trabalho noturnos. Esses processos tornaram-se possíveis com o advento da energia elétrica na década de 1880.

A iluminação elétrica mudou de forma radical a dinâmica social noturna nas cidades e nas principais áreas comerciais, agora vibrantes, atraentes, seguras. Os grandes painéis publicitários iluminados, as fachadas de teatros ou as montras de lojas iluminadas, juntamente com a nova iluminação pública, ajudavam à construção destes novos cenários urbanos.

Os restaurantes nos centros das cidades e as cada vez mais luxuosas salas de jantar de hotéis abriam portas até cada vez mais tarde. A ópera e os concertos de música clássica tornaram-se muito populares entre as classes altas da sociedade urbana. As grandes salas de cinema proliferaram nas primeiras décadas do séc. XX, atraindo audiências de classes mais diversificadas, famílias, crianças, casais, grupos de amigos. Cabarets e salões de dança convidavam homens e mulheres ao entretenimento noturno, agora em conjunto. E os ‘red light districts’ passaram a ser vistos como solução para manter a prostituição longe dos bairros residenciais.

Também nesta altura, as mudanças nos padrões de cortesia entre homens e mulheres tiveram um grande impacto na vida noturna urbana. Os encontros amorosos no século XX deixaram de estar limitados ao espaço privado, passando a acontecer nos espaços públicos à noite, em restaurantes, teatros, salões de dança.

O advento da televisão nos anos 40 do séc. XX (em Portugal uma década mais tarde) foi aos poucos, mudando o serão, o entretenimento e a cultura das sociedades. Ver televisão com a família tornou-se uma alternativa forte às saídas de casa à noite. Por outro lado, o fenómeno da suburbanização começava a intensificar-se e as populações dependiam cada vez mais de automóveis. Esta conjuntura acabou por contrair a euforia em torno da vida pública nas cidades e por redefinir a vida doméstica e os hábitos culturais das sociedades durante a noite.

Nas décadas de 1960, 70 e 80, a tipologia da discoteca singrou nas cidades europeias e americanas. Estes estabelecimentos eram mais baratos de operar do que espaços com música ao vivo, e conseguiam igualmente atrair multidões de jovens.

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Leicester Square em Londres. Fonte: http://www.e-architect.co.uk

Em conclusão, a evolução dos usos do espaço público durante a noite terá sem dúvida sido afetada pelo advento da televisão, as mudanças geracionais, a expansão dos subúrbios urbanos e pela evolução da cultura do trabalho. Em cada país, a conjuntura político-social e os hábitos culturais moldaram também o desenvolvimento da vida noturna urbana – veja-se em Portugal a diferença entre o período do Estado Novo e o pós-1974. Por outro lado, e de uma forma mais generalizada, o grau de participação cívica em cada cidade é sempre determinante na qualidade do espaço público.

Recentemente, o aparecimento das redes sociais e a revolução dos smartphones parecem ter também redefinido as formas de encontro entre pessoas e grupos.

Acredito que o nosso trabalho na transformação do espaço público (noturno) está sempre dependente destas dinâmicas. O desenho de luz deve segui-las, para um resultado mais inclusivo e contextualizado.

Joana Mendo

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