A ligação Kelly-McCandless

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Nem sempre a iluminação de palco é cheia de efeitos especiais.
Munich Opera 2014, “Le nozze di Figaro”. Design iluminação: Max Keller. Foto: Wilfried Hösl

É público e notório que uma série de profissionais recomendáveis trabalham consecutivamente em aplicações de arquitectura e aplicações de palco, como se fosse apenas uma questão de troca do sobretudo. Constatamos, também, o interesse dos mais variados fabricantes de produtos de iluminação em disponibilizar tanto uma linha para aplicações de palco como para aplicações de arquitectura, como são exemplos Griven, ETC (Electronic Theatre Controls) e Martin, esta última propondo uma linha com o sugestivo nome de “Architainment”.

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Nem sempre a iluminação arquitectural é “apenas funcional”.
Estação de metro em Munique. Designer de iluminação: Ingo Maurer. Foto: não creditada.

Uma discussão mais bem informada sobre a origem desta miscigenação obriga-nos a fazer uma viagem até aos primórdios da profissão. Claramente, a revolução eléctrica, sobretudo ao nível da distribuição, foi o catalisador para que novas necessidades de cariz social e económico relacionadas com a utilização dos espaços interiores encontrassem solução, contudo, curiosamente, a “invenção” do design de iluminação aparece adstrito ao universo do teatro.

O actor principal da façanha, Stanley McCandless (1897-1967), arquitecto de formação pela Universidade de Harvard (1923) iniciou, posteriormente, carreira profissional como consultor de iluminação para palco e integrou, cerca do mesmo período, a faculdade da Yale School of Drama. Não é de somenos esta referência, pois é com a criação de um programa de design de iluminação para palco em Yale que se instaura a disciplina do design de iluminação e principia a construção de um “body of knowledge” clássico.

Com efeito, dois dos textos primordiais sobre o design de iluminação, da autoria de McCandless, “Syllabus of Stage Lighting” (1927) e “A Method of Lighting the Stage” (1932) , constituem-se ainda hoje como uma parte substancial desse conhecimento transmitido academicamente nos cursos superiores de design de iluminação. Estes textos introduzem conceitos nucleares para a compreensão da prática do design de iluminação com noções que eram previamente inexistentes, nomeadamente permitindo que se começasse a encarar a luz como matéria-prima e que acções técnicas sobre esta produzissem manifestações tangíveis e previsíveis. McCandless introduz o (seu) método para uma iluminação do palco, com particular relevância para o tratamento da ocorrência de sombras, para a acentuação da tridimensionalidade dos actores e cenografia, destaque de texturas ou pormenores esculturais e equilíbrio ou complementaridade cromática entre iluminação dominante e de preenchimento. Aqui trata-se sobretudo a questão da visibilidade e da qualidade visual da cena.

Mas o método vai mais além, o palco começa a subdividir-se em zonas pois passa a existir a capacidade de controlar o que é visível ou obscuro e com isto surge o conceito de composição; ele é aplicado recorrendo à especificação de intensidade, da cor, da distribuição e da capacidade para fazer variar estes parâmetros – controlo.

Outro conceito que irrompe é o de atmosfera (mood), o design de iluminação deve ser especificado recorrendo a diferentes instrumentos e técnicas por forma a produzir efeitos visuais adequados à mensagem do texto dramático e à visão/interpretação do encenador, i.e., para além de facultar a mera ocorrência da função visual, o estado de iluminação adquire significado e torna-se simbólico. Relacionado, o conceito de local é introduzido como conferindo a capacidade de informar sobre aspectos contextuais relevantes para a compreensão da cena: é noite, é dia, é interior, é exterior, etc.

É importante referir que vários destes conceitos recorrem à convenção teatral para poderem ser aplicados, mas que este método está alicerçado no naturalismo que era, à data, a corrente vigente no teatro por relação imediata com o surgimento dessa nova forma artística “concorrente” – o cinema.

Posto o anterior, entra em cena a figura de Richard Kelly. Tendo cursado na School of Architecture de Yale, de onde se graduou em 1944, Kelly estudou com McCandless e, adapta uma série de conceitos, previamente avançados para o espaço cénico, para o espaço arquitectónico. Os conceitos de focal glow, ambient luminescence e play of brilliants representam os componentes do “método tripartido” de Kelly para especificação de uma “Iluminação Como Parte Integrante Da Arquitectura” (1952). Estes três conceitos correspondem a três tipos de iluminação que seriam balanceados para compor um design e obter o resultado desejado.

Inicia-se, com Kelly, um caminho paralelo a “Um Método Para Iluminar O Palco”, mas mais importante do que isso será a condensação da ideia que, também em arquitectura, a luz pode ser trabalhada de forma plástica para produzir um estado de iluminação que, para além de outros, acarreta um evidente valor emocional, à semelhança do que é esperado para uma cena de palco. Começa por ser a este nível fundamental que ambas as práticas do design de iluminação se tocam e terá sido já identificado por uma série de profissionais do design, bem como pelos fabricantes e pelos próprios clientes.

Este é o elemento-chave para que muitos dos projectos de iluminação arquitectural actuais sejam completamente over the top (veja-se os projectos finalistas para a iluminação das pontes sobre o Tamisa em Londres, http://illuminatedriver.london). Chamar-lhe-ei a deriva sensacionalista do design, a esta tendência que se verifica para redução do design de iluminação a critérios meramente estéticos, sobrepondo-se a outros tão ou mais importantes, e que poderá pôr em risco a sua qualidade global e o benefício que advém da sua implementação, tanto no palco como fora dele. Ora, eis uma boa oportunidade para revisitar os clássicos.

Augusto Bastos Ramalhão

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