A iluminação pública em Berlim, da lanterna a óleo ao LED

Vista de cima, à noite, a cidade de Berlim ainda revela claras diferenças entre o Leste e o Oeste. O lado ocidental aparece como uma teia luminosa de concentrações brilhantes (luz branca e forte), enquanto o leste mostra uma rede amarela-laranja mais escura, com algumas linhas e pontos brilhantes. As lâmpadas fluorescentes, de mercúrio, de halogéneo e de gás da metade ocidental diferenciam-se das de vapor de sódio mais barato, usado no leste.

Caminhando pelas ruas de Berlim à noite, diferenças na intensidade da luz, cor e tecnologia podem ser observadas. E estas estão quase sempre profundamente interligadas com a complexa história da cidade. As pressões do lado do planeamento urbano e de um mercado imobiliário em rápido crescimento ajudaram a apagar muitas das diferenças entre Berlim oriental e ocidental. Tal será mais visível durante o dia,  mas à noite estas diferenças ainda estão lá.

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‘Berlin at night from space’, 2013: imagem de Science & Analysis Laboratory- NASA Johnson Space Center

Como muitas cidades em todo o mundo, Berlim está neste momento em processo de modernização da sua iluminação pública. Este processo limita-se na maior parte dos casos à substituição de lâmpadas tradicionais por LEDs. Berlim está a fazê-lo de forma faseada, rua por rua, e de forma quase cirúrgica no que toca, por exemplo à substituição de antigos candeeiros de gás. Aos milhares, estes objetos históricos estão a ser mantidos e a fonte de luz a ser substituída por LED, após selecção cuidada das características espectrais, temperatura de cor, intensidade luminosa, distribuição de luz. Spandauer Wilhelmstadt é um bom exemplo de um bairro onde os antigos candeeiros, agora modernizados, foram bem aceites pela população local.

A história da iluminação das ruas de Berlim começou em 1648, quando Friedrich Wilhelm ordenou que se pendurasse uma lanterna (a óleo) por cada três casas das ruas de Berlim durante a noite. Em 1682 uma lei nacional relacionada com a protecção de incêndios veio limitar o tempo de funcionamento destas lanternas, permitidas apenas nas noites escuras de Inverno, em que a luz do luar fosse insuficiente. Nesta altura surgiu a figura do vigilante das lanternas, responsável por fornecer o óleo e acender as lanternas públicas. E assim se iluminaram as ruas de Berlim durante os 200 anos que se seguiram.

Em 1826, os primeiros candeeiros a gás iluminavam a avenida Unter den Linden e gradualmente a tecnologia do óleo foi desaparecendo – a última lanterna de rua a óleo desapareceu em Friedrichshain em 1925.

Em 1885 surgiu uma invenção inovadora do vienense von Welsbach que aplicava os princípios da lâmpada incandescente, com alimentação a gás.  Em 1898, já 27.000 candeeiros de gás em Berlim haviam sido intervencionados com esta nova tecnologia.

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A ilha dos museus, Berlim à noite: imagem de Detrich Bojko, private-guides.com

A qualidade da iluminação a gás, vista antigamente como fraca e inconstante, construiu com o tempo a identidade da iluminação pública de Berlim. E este carácter é hoje reconhecido pelos habitantes de Berlim como parte das suas ruas, confortáveis, de luz bastante reduzida quando comparada com outras capitais mundiais onde a noite por vezes se confunde com o dia. A noite de Berlim é de facto escura.

Durante a II Guerra Mundial, 80 % dos candeeiros públicos de Berlim foram destruídos. Entre o Leste e o Oeste, as diferenças no processo de reconstrução foram significativas. Berlim Ocidental optou por modernizar o seu sistema de gás, com novas luminárias a serem produzidas localmente. Estradas e ruas principais receberam também um upgrade em potência e na temperatura de cor, um pouco mais fria.

Do lado de Berlim Leste os candeeiros de gás foram retirados mais cedo e substituídos por luminárias eletrificadas. As bonitas lanternas a gás desapareceram e muitas foram vendidas à cidade de Utrecht onde ainda hoje são possíveis de admirar.

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Lanterna a gás em Berlim: imagem de securitycitytravel.com

Das cerca de 44 mil luminárias a gás que ainda operavam nas ruas de Berlim em 1990, ainda há hoje cerca de 30.000. Desse total, 3300 permaneceram, protegidas por leis de proteção de património arquitetónico. As restantes serão progressivamente substituídas por LED, em fases de execução que seguem fases de financiamento e que serão necessariamente acompanhadas de consulta pública aos moradores.

A temperatura de cor dos novos LEDs deverá estar entre o intervalo 2700 a 2900° Kelvin (temperaturas quentes), análoga à das luminárias a gás.

Em termos de consumo energético, passa-se de uma luminária a gás que necessitava de cerca de 1060Wh (Watts hora) para uma luminária que necessitará de 24Wh. Os custos de manutenção baixam de cerca de 350 euros por ano por luminária para cerca de 50 euros. Fazendo a conta, na escala da cidade, falamos de cerca de 3 milhões de euros de poupança por ano em energia e manutenção.

Joana Mendo

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