“Natal é… Luz”

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Oxford Street, Londres. Instalação Castros – Iluminações Festivas, 2016. (como apresentada na TimeOut Magazine).

Com a chegada a esta altura do ano, porventura a mais desconsiderada disciplina do design de iluminação sai à rua e transforma várias ruas e praças pelo país fora em autênticas ribaltas do palco urbano, com uma multiplicidade de instalações de iluminação para todos os gostos sob a alçada comum da tradição festiva que, diga-se de passagem, já não é o que era.

Historicamente, a associação entre luz e celebrações religiosas é recorrente, mais ainda no caso do Natal com a sua acepção derivada de “nascimento”; em todo o caso não será esse o objecto fundamental tratado num projecto de iluminação festiva. A religiosidade do evento aparece como mero pretexto podendo, sem dúvida, inspirar o conceito do design, mas o projecto em si não pretende desempenhar função religiosa; por outra, as necessidades a que o projecto dá resposta passam, normalmente, pela afirmação da relação identitária cultura/tradição, a necessidade de projecção, a activação de ruas comerciais, a necessidade de partilha social e a necessidade de expressar e constatar o belo.

É de memória recente a machadada que os orçamentos municipais levaram nesta rubrica; o aperto que se fizera sentir no erário público exigia que medidas fossem tomadas e a medida tomou-se, mas não vingou. A discussão sobre a pertinência de um projecto de iluminações de Natal deve ter por base a sua função ritualística, pois é precisamente disto que se está a falar quando se fala da demarcação de um determinado momento cultural utilizando um determinado expediente. Não compreender a pertinência e relevância das celebrações ritualísticas como bastiões da identidade cultural e social é desconsiderar um dos aspectos que mais contribuem para fazer do ser mais humano.

A este respeito, e desde tempos imemoriais, pouca, vou lhe chamar, “substância” deve ter havido mais eficaz a tratar assuntos do rito e do símbolo que a luz, pela sua natureza ao mesmo tempo etérea e solene, por toda a riqueza metafórica que ela nos sugere e que advém, fundamentalmente, dos seus contornos metafísicos.

Assim, será facilmente compreensível que um projecto de iluminação festiva seja considerado particularmente complexo, ele é materializado simultaneamente na forma de produto concreto, de ambiente e de símbolo. Vive também de uma relação muito particular com o espaço, geralmente urbano, em que está inserido, à semelhança de outros exercícios de iluminação normalmente mais técnicos e denota, além do anterior, uma forte intenção decorativa.

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Vila Nova de Gaia. Instalação Castros – Iluminações Festivas, (data incerta).

A um passado de cariz muito artesanal e oficinal, com criações de expressão nitidamente cultural que facilmente transparece nas peças produzidas, sucedeu-se um presente em que aquilo que se vê obedece a uma evidente estilização dos motivos e que corresponde a um padrão internacional, sem o carisma pitoresco das peças de outros tempos, mas que procura criar condições para surpreender e enriquecer a experiência do visitante a outros níveis.

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Bond Street, Londres. Instalação Castros – Iluminações Festivas, 2014.

Estes projectos são em muitos dos casos utilizados como autênticas “armas” de marketing para a promoção da marca-cidade enquanto destino de eleição assente no turismo de lazer e no turismo de compras. Há, neste sentido, uma particularidade que começa já a tornar-se evidente: a exigência dos projectos é progressivamente maior; para além dos cada vez maiores requisitos de engenharia, o exercício de design deverá ser capaz de integrar com sucesso uma sublimada componente visual/estética e uma outra cada vez mais tecnológica, que permita, nomeadamente, que o visitante não seja apenas um mero espectador.

Perante a necessária e habitual substituição tecnológica parcial a médio prazo, as novas fontes de iluminação fomentarão uma intenção de redesenho mais ou menos radical, o que conflui pacificamente com a admissibilidade cada vez maior de motivos não convencionais e permitirá ainda dotar as instalações com novas formas de as experienciarmos. O design da experiência será, como em outras áreas do design, uma das componentes chave das iluminações festivas no futuro.

Para o designer de iluminação, este cenário aqui retratado deve servir tanto como de estímulo e desafio para a especificação de novos designs verdadeiramente relevantes e inovadores, bem como de alerta para as dificuldades intrínsecas ao processo, que são muitas e de variada ordem, não devendo estas ser menosprezadas em momento algum, especialmente por este profissional em particular.

À pergunta “o que é para si o Natal?” o título deste artigo afirma-se como uma das respostas mais imediatas, por isso, apesar de um presente já multifacetado, e um futuro mais ainda, seguramente, é certo que a luz e as iluminações serão sempre o aspecto central da vivência do Natal no espaço público.

Augusto Bastos Ramalhão

Créditos imagens newsletter. Esquerda: material projectual CAD. Direita: instalação Castros S.A. Lisboa, 2011.
Notas: 1) são endereçados agradecimentos à Castros – Iluminações Festivas S.A. pela facultação dos materiais gráficos utilizados neste artigo. 2) o autor opta por escrever na grafia anterior ao novo acordo ortográfico.

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