EILD_2016, de sentidos apurados!

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O final do encontro. Foto: Instagram eild_oficial

Cheguei à bela Ouro Preto (Minas Gerais, Brasil), cidade eleita pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, na noite do passado dia 19 para participar no EILD_2016, o evento com uma série de eventos dentro de si. Ansiosa pelo início do mesmo…  Corresponderia este evento às minhas expectativas?

No dia 21, o programa local Sentidos Urbanos, que participou do encontro, marcou a abertura das actividades, levando-nos a explorar sensorialmente a cidade e os seus enquadramentos, sons, texturas, cheiros e… os sabores, ficaram para o decorrer do encontro.

Para quem já havia caminhado pela cidade, foi-me proporcionada uma experiência diferente. Um modo de sentir a mesma, abdicando de um sentido de cada vez, por forma a perceber o quanto cada um deles nos pode dar a entender não só o espaço, mas o lugar. Como quando nos foi pedido que vendássemos os olhos e realizássemos um pequeno percurso junto a uma das igrejas da cidade, formando uma fila. Com a mão esquerda completamente “colada” ao edifício, e a direita no obro do parceiro da frente, sentimos cada pedra, cada desnível do piso e cada vértice do edifício. Pudemos percepcionar alguns sons da cidade, como músicas festivas e religiosas, ou mesmo o som dos carros a passar com alguma velocidade por entre as ruas estreitas e as ladeiras empedradas. Houve quem destacasse o passar de um cheiro… eu não consegui apurar tanto o olfacto, mas confesso que estas experiências me lembraram que não devemos confiar apenas num sentido e que devemos perceber e projectar o espaço, pensando com cada um deles e para cada um deles.

As actividades seguintes partiram deste momento e levaram-nos a explorar diversos pontos da cidade, através de um jogo que interligou todo o evento. O envolvimento foi geral. Pela cidade, os participantes buscavam enquadramentos, pormenores, pessoas, luzes, cores, sombras, materiais e outras conexões. Como que procurando ligar as suas próprias memórias sensitivas com o lugar.

O meu jogo partiu dos sete espaços (7.L.I.G.H.T.S.et) criados para a exploração e o ensaio da luz que permitiram experienciar sensações diversas. Pequenos oásis de luz, por entre a escuridão, que despertaram a curiosidade e a vontade de tocar, provar, ouvir, cheirar e desvendar os materiais, as formas, as sombras, as cores e as emoções. Exemplo disso, o espaço criado pela Arquitecta portuguesa Margarida Bernardo, mostrando os “Materiais sob a Luz”. Espaço para ser sentido dos pés à cabeça, uma vez que era obrigatório entrar descalço. Entrei no escuro total, nem sequer acendi a minha “luz de mineiro”. Pude sentir um cheiro “alaranjado” à entrada e os meus pés tocaram uma superfície estranha e suave, passando para uma mais rugosa e depois uma mais lisa e fria…. Quando a luz voltou ao espaço, perdi o medo e fui surpreendida pelas possibilidades em volta.

Continuando a destacar a presença portuguesa no evento, na mostra de projectos Ibero-Americanos _ “PANORAMA”, pudemos contemplar o projecto da Synapse para o Hotel Ozadi, um dos seleccionados para a exposição de 30 projetos de iluminação de exteriores e interiores.

Mais havia para contar… No decorrer dos quatro dias do encontro, fomos envolvidos num processo interactivo e de interacção com a cidade, com os habitantes, com as instituições culturais e de ensino e seus alunos. Um processo do qual todos beneficiaram, um encontro de ideias que inspirou e continuará a inspirar o trabalho de cada um de nós, seja este em que área for.

Enfim, o legado não será apenas para os Lighting Designers mas, também, arquitectos e outros artistas ou estudiosos e curiosos. Novas formas de encarar os desafios e de evoluir sempre. Arriscando, confiando e procurando mais informação. Tornando o Processo Criativo num acto interactivo, multidisciplinar e complementar. Processo que é base da linha editorial do evento, desenvolvido pelas Arquitectas e Lighting Designers Diana Joels e Maria João Pinto Coelho, em representação do Brasil e Portugal, respectivamente. Para reforçar este conceito, foram convidados profissionais internacionais para conferências multidisciplinares, de tom desafiante e inspirador. Como o educador e conferencista escocês, residente no Brasil, Charles Watson; A holandesa Lonneke Gordijn, em representação do Studio Drift; A arquitecta e urbanista brasileira Maria Cristina Rocha Simão; O historiador brasileiro Alex Fernandes Bohrer; E do Reino Unido, o engenheiro e cientista italiano, Daniele Quercia.

O final do encontro foi marcado pela emoção e gratidão dos participantes, com o sentimento geral de estar presente num momento de troca, abertura, calor e liberdade. Foi evidente, também, a emoção por parte do comité da organização do evento. O objectivo de transformar e transcender a que o encontro se propunha foi, sem dúvida, alcançado.

Quanto às minhas expectativas?

Aguardo, ansiosamente, pelo próximo encontro…

Paula Pinote

 

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Programa “Sentidos Urbanos, Património e Cidadania”. Foto: Instagram eild_oficial

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Diversos “7.L.I.G.H.T.S.et”. Fotos: Paula Pinote

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