Porto: Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, Matosinhos

Não é frequente ter oportunidade de visitar o Porto mas, no passado fim de semana de 18 e 19 de Junho, estive na cidade, propositadamente para conhecer uma série de edifícios com relação ao estudo que estou a desenvolver sobre a luz natural na arquitectura Portuguesa. Coincidiu que estava a decorrer, em parte da área metropolitana do Porto, o evento Open House e tive a oportunidade de, sem necessitar de autorizações especiais, percorrer o edifício do Terminal do Porto de Cruzeiros, localizado no Porto de Leixões em Matosinhos.

Há no edifício do Terminal do Porto de Cruzeiros um gesto ondulante, que se insinua já no percurso de aproximação à entrada e que cresce gerando toda envolvente do espaço arquitectónico ao mesmo tempo que desenha o percurso do visitante. Encontra-se algo de referência ao mar nessa ondulação e depois em inúmeros aspectos que vão desde o material usado no revestimento principal, à forma dos carretéis de incêndio.

O material de revestimento principal, que se encontra quer no exterior quer no interior, é cerâmico. Não é contudo novidade em Portugal a utilização do material cerâmico como revestimento, já que por todo o país encontramos recorrentemente o uso do azulejo para revestimento de fachadas ou para revestimento interior. O que parece ser uma tendência actual é o recurso ao material cerâmico de cor branca, especialmente em edifícios que têm alguma relação com a água. (Este material surge também na recente extensão do Oceanário – Edifício do Mar e ao que parece, surgirá no quase concluído? Museu da Arte, Arquitectura e Tecnologia, ambos em Lisboa.)

sr_terminal_01

 

No caso do edifício do Terminal de Cruzeiros, a reinterpretação do vulgar azulejo criou um revestimento que reage exemplarmente ao contacto com a luz natural. Foi utilizada no azulejo uma forma hexagonal (que pode remeter para a memória colectiva do azulejo alicatado árabe) e que recebeu um ligeiro empeno na superfície, o que lhe dá uma aparência menos industrial. Como cada azulejo foi colocado para não estar complanar em relação aos azulejos que lhe estão adjacentes e, o azulejo surge sobre superfícies que já de si são curvas, criou-se um revestimento que a qualquer momento, por se tratar também de um elemento especular, tem a capacidade de reflectir a luz que recebe em diferentes ângulos. O resultado é semelhante ao de uma superfície iridescente, em que vemos replicado o comportamento das escamas dos peixes. A irregularidade da extensão de azulejos cria também uma modelação bastante orgânica na reacção à luz natural e na modelação de brilhos e sombras.

sr_terminal_02

É assim, no modo como as formas curvas e o material azulejo dialoga com a luz natural e no modo consequente como essas formas e material são revelados pela luz que, a meu ver e na parte referente à iluminação é claro, recai o grande interesse deste edifício. Penso que, ao observar as situações de iluminação artificial, não me deparei com a mesma coerência, o que me decepcionou um pouco.

Encontrei é certo, algumas situações como pontos de excepção interessantes. Contudo, à parte destes momentos especiais, nos restantes espaços, a iluminação artificial pareceu não ter sido estudada com a mesma atenção que foi dedicada a todo o projecto. Deparei-me com uma série de soluções de iluminação artificial diversas sim, mas também banais. Pareceu-me que estas soluções terão sido menos ponderadas, dando resultado assim a situações em que a iluminação artificial não é mais que um elemento utilitário com pouca relação com a arquitectura ou o espaço. Por isso refiro que as opções relativas à luz artificial são soluções tímidas em contraste com a unidade, coerência e força que foram absolutamente garantidas na questão da luz natural.

sr_terminal_03

Ou então o facto de estar a observar o edifício à luz diurna e não a horas nocturnas poderá ter diminuído os possíveis efeitos planeados para a iluminação artificial. Ou ainda o pormenor de estar a desenvolver um estudo sobre a iluminação natural na arquitectura me tenha deixado levemente parcial. O que é certo é que, para além da subtileza formal e da antecipação do percurso, o que melhor retive da visita ao edifício foi o resultado de uma excelente coordenação da relação deste com a luz natural.

Sara Roby