Gosto de livros, sobre livros!

Porquê? Talvez, porque se multiplicam as possibilidades de entender, de descobrir, e redescobrir, os mistérios e os segredos dentro de cada um de nós, quando manuseamos e sentimos ‘o peso’ de cada página que, ao toque, liberta um novo mundo dentro de nós.

Livros arrumados em longas prateleiras ou amontoados no chão; livros fora do sítio e que procuram o seu lugar; livros à espera de virem a ser relidos; livros que deixam um parteleira e se acomodam num bolso.

Segredos entre-linhas, pontuação que espelha um mistério, perguntas que reflectem o desassossego de cada espírito. Livros que abrem janelas e que viajam connosco.

Livros sem tinta, de páginas em branco, e que, por isso, as personagens são infinitas permitindo desenhar histórias dentro de histórias que testemunham outras histórias.

Assim, ir ver O Livro de Olafur foi um chamamento que a própria distância não impediu. Apanhei o avião de Lisboa e aterrei em Madrid. Almocei com um amigo, no restaurante Teatrix, preparando-me para perseguir a transformação que os espaços e as amizades sempre nos trazem e segui para a Galeria Ivory Press. Era cedo e, por isso, tive que esperar… Matei o tempo passando as páginas de alguns livros sobre a obra de Olafur, como alimento de uma expectativa sem nome.

book

Entrei na sala e ali estavam: 9 livros dispostos em círculo.

Em círculo? Por onde começo?

Olhei em redor e, instintivamente, coloquei-me ao centro. Rodando em torno de mim própria, li o livro! De trás para a frente; da frente para trás. Parei numa página, rodei (sobre mim própria) para as 2 seguintes e deixei-me fascinar.

Eu era a página!

Eu era o livro!

E, o tempo, passava sobre mim.

Nesta dinâmica que nos toca como se o infinito ali estivesse presente, somos observadores e escritores porque somos, também, quem se movimenta, quem se desloca e gira (a lombada) em torno de nós próprios reforçando a dialética entre o nós e o objecto/a história e a obra/história e o leitor.

Não me aproximei logo de cada página. Queria, primeira, sentir todo esse universo; tocar, e ser tocada, por essa experiência e, tinha que manter a distância (de mim própria).

9 livros!

O número nove é o número mais universal e sofisticado de todos os números.

É o número que contém uma consciência global que oferece compreensão e atende a todos; que entende as conecções entre toda a humanidade; que é tolerante e que confere Unidade.

A energia do número 9 é considerada como ’The Light of the World’ e representa o todo de todos.

Respirei fundo e aproximei-me, então, de uma página.

O fascínio da simplicidade.

Uma página onde nós reflectimos e, por isso, somos história.

A leveza de uma única figura geométrica desenhada e, a firme linha de sombra que a revela, é transportada para a página seguinte e, a seguinte e, a seguinte…! 12 páginas.

A responsabilidade de virar a página.

Nós somos responsáveis pelo que somos e como tocamos o mundo exterior porque disso depende como ‘os objectos’ no tocam. Não são precisas palavras, nem letras, nem pontuação. É a energia que o próprio número 12 encerra.

O número 12 é considerado como um número cósmico (12 planetas) que governa o Tempo e o Espaço.

Representa e significa um ciclo completo e harmonioso de experiências e aprendizagens para a regeneração atingir uma consciência mais elevada, após muitas e variadas vidas. Representa o processo educacional e de crescimento no seu todo.

12 meses

12 fases da lua e do sol

12 signos (calendário chines e ocidental)

12 horas que perfazem meio dia

12 polegadas perfaz queem um pé

12 notas de música que perfazem uma oitava

e, ainda,

12 templários

12 apóstolos

12 pães

12 portas

12 anjos

12 tribos de Israel

12 fundações

e, ali estava eu!

Em cada linha, em cada página, como observador, leitora, escritora à beira do sublime e de todas as sensações, numa só. Cumpria-se um ciclo perfeito. Esqueci-me onde estava!

A interacção do espaço, começou então a revelar-se, nesta inibriante procura. As clarabóias daquele tecto reflectiam-se em cada página, na sucessão de páginas pertubando a nossa presença, não permitindo que tivéssemos sós. Afinal, não somos um livro. Somos mundo, numa profusão de cores, de formas que se revelam conforme a perspectiva em que nos colocamos, conforme olhamos e somos olhados; somos leitores, escritores, personagens. Um jogo narrativo que reúne todos os elementos que a ‘luz’ modela e desenha: a poesia, a sombra, o espaço, os materiais, a cor e, nós, reflectidos não numa imagem só mas, numa sucessão de imagens que se sobrepõem para nos confundir.

Começaram a chegar muitos visitantes com a curiosidade ainda por acalmar.

Era altura de me ir embora e, só à saída, reparei no exemplar do livro, fechado.

Uma ‘caixa’ lisa, negra que encerrava o mistério de cada um de nós e que, nessa complexidade, ansiamos por folhear pensando que, o dia seguinte, é outro dia!

O jogo estava ali dentro e cabia a cada um jogar.

Tinha-me, simplesmente, encontrado com a ‘caixa’ que projectava todas as 7 caixas de luz do Juego de la luz*.

 E, só mesmo um livro as poderia reunir!
MJPintoCoelho, FLLD.
* projecto concebido para EILD.2012, Queretaro, Mexico.

 

Artigo publicado em versão espanhola na Lightecture em 2014.