Como uma boa iluminação poderá contribuir para minimizar a poluição luminosa

A história da iluminação artificial e electricidade mostra uma interessante perspectiva sobre como certas inovações tecnológicas mudaram a forma de viver do mundo moderno. O impacto da iluminação artificial está intrinsecamente enraizado na nossa sociedade, de tal forma que já não nos é possível imaginar um mundo sem luz.

Antes da iluminação artificial, a vida diária estava quase exclusivamente dependente do ritmo natural do dia. Hoje em dia, os dias prolongam-se pelo simples acender duma lâmpada e não é possível dissociar a luz do contexto urbano. A luz permite originar vida nocturna,  trazendo dinâmica e uma fonte económica importante para as nossas sociedades. Por outro lado, a iluminação pública tornou-se um símbolo da modernidade, providenciando uma percepção de dinamismo e segurança, promovendo a socialização entre pessoas e definindo uma cultura nocturna e novas formas de regeneração urbana. No entanto,  um desenvolvimento demasiado rápido e sem planeamento adequado tem um custo acrescido. A necessidade de iluminarmos mais as nossas cidades levou à “insurgência” de iluminação não planeada assim como más estratégias de iluminação, produzindo vários efeitos secundários de ordem económica, social e ambiental, nomeadamente, poluição luminosa.

hongkong

‘Hong Kong: Symphony of light’, espectáculo de luz diário. Foto de Denys Zhadanov

A poluição luminosa tem várias formas: luz intrusiva, encadeamento e provavelmente a mais conhecida e controversa de todas, a luminância ou brilho do céu (sky glow). O sky glow é maioritariamente luz proveniente de iluminação focada e direcionada para o céu, sem qualquer dispositivo de controlo fotométrico, criando ‘uma névoa luminosa’ que paira sobre as cidades, eliminando a escuridão e inviabilizando qualquer leitura e visão do céu estrelado. O aumento extraordin´rio da luminância do céu nocturno tem consequências nos ritmos circadianos biológicos dependentes da luz aos quais muitas formas de vida, incluindo os humanos, se foram adaptando.

Vários estudos ao longo dos últimos anos têm provado o impacto e os efeitos negativos deste problema o que nos pode levar a concluir que estamos perante um ponto de viragem em que a poluição luminosa não pode ser mais ignorada e deverá ser “combatida”. No mundo natural, cada vez que a iluminação artifical ilumina o céu , algum aspecto da vida do mundo natural – sono, reprodução, migração, cadeia alimentar – poderá ser afectado.

Muito se tem falado das possíveis soluções, e a verdade é que como designers de iluminação, cabe-nos também a responsabilidade de contribuir para a sua resolução. Realisticamente, será muito difícil erradicar completamente a poluição luminosa. O problema está principalmente afecto aos centros urbanos, nos quais a demanda por iluminação e vida nocturna fazem parte da cultura contemporânea, contudo, a poluição luminosa pode definitivamente ser minimizada nas cidades e presentemente têm sido feitos alguns esforços para encontrar o equilíbrio certo entre luz e escuridão.

Em algumas partes do globo já existe legislação e regulamentação que definem os limites e termos aceitáveis em relação à iluminação artifical no ambiente natural. As entidades reguladoras têm vindo a fomentar a sensibilidade perante a existência de regulação, mas todos estes processos são muito complexos e levam mais tempo que o previsto para se poder reduzir drasticamente e rapidamente a luz que ofusca o céu.

telescope

‘The night sky in New Mexico’. Foto de Harun Mehmedinovic e Gavin Heffernan

Os cientistas e investigadores também têm abraçado esta causa e tentativas mais recentes como a definição do atlas global da luminância no céu e respectivas ferramentas de medição de sky glow poderão ajudar a defender esta causa e a criar algum consenso na comunidade científica e entidades de decisão. No entanto, o facto de mais pessoas estarem sensibilizadas para este problema pode significar que acções educativas e iniciativas como a Noche Zero, ou o reconhecimento de reservas Dark-Sky nalgumas zonas do planeta (áreas que não têm poluição luminosa e que têm critérios muito apertados de forma a controlarem a iluminação pública para assim se manterem nesta condição- em Portugal temos uma área abrangida por este programa no Alqueva) estarão a começar a dar os seus frutos. Embora este esforço educativo signifique que um maior número de pessoas consiga reconhecer má iluminação (iluminação sem controlo e que não está direccionada para onde é necessária), resta ainda a dúvida de como será possível divulgar o conhecimento e boas práticas de iluminação? Adicionalmente, como é que os designers de iluminação e urbanistas poderão combater um medo intrinseco da escuridão, ao mesmo tempo que iluminam as cidades promovendo  a percepção de segurança, beleza e vida nocturna?

Paula Rainha

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.