Sobre o logótipo da associação

Com o primeiro número da newsletter da LLD-APDII Associação Portuguesa de Designers  Independentes de Iluminação, estabelece-se um primeiro contacto com os associados e todo o público. Parece então pertinente esclarecerem-se as ideias subjacentes ao desenvolvimento do logótipo da Associação, pelo que procurarei fazê-lo.

O conceito que foi definido para a criação do logótipo da LLD-APDII determinava que o logótipo deveria estabelecer uma ligação ao cérebro e à percepção. Além disso foi também estipulado que o logótipo deveria ser composto por um elemento figurativo e por texto com fonte de letra simples, clara e expressiva, apropriada para criar juntamente com o elemento figurativo, um conjunto coerente.

Quando comecei a desenvolver o logótipo e me inteirei do conceito (porque não o defini) percebi que importava também de alguma forma falar de luz, visto que se tratava do logótipo para a Associação de Designers de Iluminação. Surgiram-me então na memória as obras iniciais de James Turrell. Recordei-me de trabalhos deste artista sempre ligados aos fenómenos da percepção e especialmente daqueles onde nos surge a ilusão de um objecto tri-dimensional emissor de luz, em algo que é apenas um mero canto (ou esquina) excepcionalmente iluminado.1 Tive então a pretensão de brincar igualmente com a percepção, valendo-me de alguma ilusão ou dualidade. Nesse caso fui apoiada pelos contributos da neuroestética, que defende que os estímulos preferidos por observadores parecem ser aqueles que induzem no cérebro diversas evocações de informação armazenada,2 sendo que o logótipo poderia ganhar interesse usando a dualidade, pois poderia tentar provocar algumas associações a diferentes referências.

Havia no entanto, neste caso, fortes condicionantes a gerir, destacando-se as seguintes.

A luz existe no mundo real tridimensional logo, como simular a tri-dimensionalidade em algo tão bi-dimensional como um logótipo?

A luz é um fenómeno que só é visível na sua interacção com os objectos portanto, como dar presença física a algo tão imaterial como a luz?

O desenvolvimento do trabalho conduziu ao uso de três elementos como elementos gráficos do logótipo. No fundo, estes não são mais do que três manchas de cor mas, contudo, a composição gráfica e as características destas manchas de cor procuram estimular a percepção, fazendo as manchas insinuarem-se como algo diverso do que o que realmente são.

Em primeiro lugar, uma sobreposição nas manchas de cor confere alguma profundidade ao conjunto, o que se associa à tridimensionalidade e ao espaço. O grau de transparência usado na cor que se sobrepõe remete também para a tridimensionalidade e acrescenta a referência à natureza etérea da luz. O efeito esfumado e irregular do contorno das manchas de cor reforça essa referência e simula ainda a expansão e vibração, características das fontes de luz intensa. Por fim, os contrastes de cor usados evidenciam a saturação de cada matiz, conferindo um grau de intensidade a cada cor próprio das entidades emissoras de luz. Desta forma, os elementos gráficos do logótipo estimulam a percepção a diferentes níveis, primeiro por serem eles próprios elementos de limites indefinidos e depois por evocarem diversas referências às questões da luz/ iluminação.

Quanto à parte de texto, a palavra laboratório foi intencionalmente usada por extenso para sublinhar o objectivo da Associação de funcionar com os pressupostos de um laboratório, tornando-se um campo aberto à experimentação, discussão, colaboração e intercâmbio de ideias e conhecimento. A fonte de letra escolhida para a palavra laboratório foi uma fonte simples e de carácter informal que, associada ao uso de minúsculas reforça a ideia de laboratório dinâmico sem o peso que uma fonte mais clássica poderia trazer. As letras L e D, que abreviam as palavras Lighting Designers, foram desenhadas especificamente para o logótipo, numa aproximação à fonte de letra usada na palavra laboratório. A assinatura do logótipo, que denomina por extenso a Associação, utiliza também a fonte de letra escolhida para a palavra laboratório, por uma questão de coerência.

A marca mais pessoal, que em qualquer trabalho criativo é impossível não deixar de existir, surgiu neste caso na escolha dos matizes azuis. Aqui pesou o gosto próprio que, no campo da cor, quer em mancha de tinta quer em iluminação, tem inclinação pelo azul.

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Espero que a descrição das premissas que estiveram na génese do logótipo da Associação e a exposição das pequenas nuances que o compõem permitam a compreensão do mesmo a um nível mais aprofundado. Contudo, para a maioria do público que contacta com a Associação e que não estará informado a este ponto, creio que o logótipo cumpre o seu propósito. Ele é claramente indicativo do meio profissional em que os associados da LLD-APDII se integram e põe em evidência os dois elementos com que o designer de iluminação trabalha – a luz e a percepção visual.

1 São bons exemplos os trabalhos de James Turrell datados de 1968. Ver www.jamesturrell.com/work/date.
2 Ver Zeki S. (1999) Inner Vision: An Exploration of Art and the Brain. Oxford: Oxford University Press. pp 23 ou Biederman I, Vessel E A.(2006) Perceptual Pleasure and the Brain: A novel theory explains why the brain craves information and seeks it. American Scientist, 94. pp 249-255